O Papel das Ciências Comportamentais na Luta Antirracista

O Papel das Ciências Comportamentais na Luta Antirracista

LA - Foto site Compressed
Luana Almeida
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Caio Cruz
CLOO - Amity
Amity Dystyler

É comum ligarmos o antirracismo ao combate à violência que a população negra sofre, seja ela física, psíquica ou social. Apesar da grande indignação que devemos sentir sobre o racismo, esta não é a única violência racial praticada, ainda que seja a mais latente. O racismo é mais do que um problema complexo, é uma forma sistêmica de pensar as relações do quotidiano, refletindo-se em todas as demais áreas, como economia, educação, saúde, emprego, etc.

Ao observarmos a vida de pessoas negras ao redor do mundo, podemos notar que racializar essas pessoas através de uma série de enviesamentos e estereótipos negativos reduz o bem-estar dessa população. E para mudar esse cenário, as organizações, governos e a sociedade precisam de se dedicar ao Antirracismo.

O Antirracismo é o movimento de combate ativo ao racismo. É uma forma de não deixar que o racismo se introjete novamente em todas as esferas da sociedade e continue a prejudicar pessoas todos os dias. Por isso, ao menor sinal de racismo, reaja. Essa reação pode ser de várias formas, seja uma correção de um termo ou expressão, uma alteração em um processo seletivo, formulário, registro, até mesmo aquelas mais difíceis, quando é necessário sair da nossa zona de segurança para evitar algo irreversível. Todas as áreas precisam de se dedicar à luta antirracismo para que a sociedade reverta a situação.

As Ciências Comportamentais Aplicadas estão a trabalhar para compreender como produzir intervenções e nudges que reduzam o comportamento racista. Uma simples intervenção de retirar ou anonimizar os nomes que são lidos como nomes de pessoas negras em determinada região, pode dar mais oportunidades para que pessoas negras não sejam excluídas em processos seletivos, como mostra o estudo realizado nos EUA. Porém, não é um tema fácil, pois o racismo possui atalhos e gatilhos que podem ser acionados a qualquer momento, e que na maioria das vezes estão ligados ao processo de tomada de decisão de quem pratica o racismo.
Como podem observar, é consensual que currículos inadequados para determinada vaga, não sejam selecionados. Mas o estudo de Bertrand e Mullainathan em 2004, mostra que o nosso processo de escolha e seleção não é assim tão racional e que, uma interpretação de raça através do nome, muda as decisões.

Fonte: Bertrand, M., & Mullainathan, S. (2004)

Mas o resultado da pesquisa mostra o contrário, há um grupo que tem mais oportunidades do que os outros, mesmo com um currículo avaliado como inferior. Mesmo que isso não faça o menor sentido se, supostamente, baseamos as nossas escolhas em fundamentos racionais.

Fonte: Bertrand, M., & Mullainathan, S. (2004)

Um exemplo para entendermos melhor esta questão é quando estamos a andar na rua e nos deparamos com uma pessoa. Não temos informações suficientes sobre ela, qual a sua profissão, se tem filhos, família, se é casada ou casado, se trabalha naquela região ou estuda, enfim, há uma ausência de informações concretas. Então, o nosso sistema rápido e automático inicia o processo de supor informações com base nas suas interpretações. Isto é quase inevitável, mas o grande mal é quando essas nossas “suposições” prejudicam a vida de outras pessoas. As intervenções das ciências comportamentais procuram ativar o sistema complexo e difuso, conhecido por ser um sistema mais lento e reflexivo, para ampliar a nossa capacidade interpretativa, procurando evitar erros no quotidiano.

A leitura de artigos, livros e escritos em geral de POC (people of color) é essencial para que melhor possamos entender as experiências diversas que compõem diferentes grupos étnicos e raciais. É também um importante aliado na hora de construir essa capacidade interpretativa, tipicamente associada ao sistema 2, mais lento e reflexivo. Entretanto, é importante lembrar que não é tarefa dessas pessoas ensinar outras o que é socialmente apropriado e o que não é. Aqueles que não fazem parte de grupos minorizados devem procurar, por si próprios, informações para continuar a questionar o pensamento rápido e automático, que pode partir de preconceitos e estereótipos.