As Iniciativas Humanitárias que Abraçaram as Ciências Comportamentais

CLOO World Humanitarian Day

As Iniciativas Humanitárias que Abraçaram as Ciências Comportamentais

As ciências comportamentais demonstram que pequenas mudanças, subtis e, por vezes, contra-intuitivas, na forma como as mensagens são estruturadas, podem ter um impacto desmedido nas decisões que tomamos e nas ações que realizamos. Por exemplo, uns Pesquisadores no Reino Unido desenvolveram um projeto com o intuito de motivar a diminuição dos gastos de energia em casa. O método utilizado foi “simplesmente” a comparação, isto é, foi comparado o uso de energia entre vizinhos – através da média de consumo, que levou a uma redução significativa no consumo de energia. Na mesma linha, um estudo da Equipa de Ciências Sociais e Comportamentais da Casa Branca (SBST) mostrou que indicar aos veteranos estadunidenses o ganho de um benefício durante os seus anos de serviço militar, leva a um aumento de 9% de acesso a aplicações que informam sobre o benefício, em comparação a apenas dizer que “eram elegíveis a ele”. Com base no sucesso desses programas, em janeiro de 2016, Ban Ki-moon, o então Secretário-Geral da Nações Unidas, contratou o primeiro Conselheiro das Ciências Comportamentais da ONU, como forma de desenvolvimento e reconhecimento da importância dos insights das ciências comportamentais para discussões políticas e logísticas. A United Nations Behavioral Insights (UNBI) foi, então lançada, uma equipa de especialistas empenhados na tradução das percepções das ciências comportamentais em programas mais eficazes e eficientes.

GreenCrowds, a primeira plataforma de crowdfunding social do Equador, por exemplo, visa aproveitar o poder das multidões para apoiar projetos inovadores de base rural que protegem o meio ambiente ao mesmo tempo que fortalecem identidades culturais locais. É apoiado pelo Programa de Pequenos Subsídios do Fundo para o Meio Ambiente Global e implementado pelo PNUD. Por meio desta plataforma, empreendedores preocupados com o meio ambiente no Equador, têm a oportunidade de postar projetos que precisam de financiamento no site do GreenCrowds. Durante a sua primeira campanha, o GreenCrowds não gerou financiamento suficiente para o sucesso dos projetos comunitários. Assim, a UNBI elaborou comunicações para os potenciais doadores como forma de aumentar a motivação para contribuir, enquanto reduziu barreiras percebidas, como o tempo e o esforço necessários para doar. As mensagens de e-mail transmitem que doar é uma ação socialmente normativa e pode ser realizada por meio de uma ação simples, imediata e única. Além disso, os e-mails conectam potenciais doadores a histórias vívidas e detalhadas de pessoas e projetos que precisam de financiamento, uma forma eficaz de humanizar as questões e mobilizar doações.

A UNBI, em parceria com a UNICEF e o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) identificou pontos estratégicos para envolver e mudar crenças e atitudes de pais e membros de diferentes comunidades sobre o casamento infantil no sul da Ásia, Oriente Médio e África. Pesquisas em ciências comportamentais demonstram que, da mesma forma que o enquadramento de uma mensagem pode influenciar significativamente as atitudes e crenças daqueles que as recebem, as características do mensageiro também influenciam a percepção dos receptores. Nesse caso, o mensageiro deve ser alguém com credibilidade social e influência moral, já que estará a desafiar normas pré-estabelecidas sobre o casamento infantil. Dado o forte papel histórico da religião na condução de normas culturais e no fornecimento da orientação moral, envolver líderes religiosos pode ser uma abordagem poderosa para promover mudanças nas atitudes e ações das pessoas, juntamente com políticas e legislações contra o casamento infantil. Dessa forma, UNBI, UNICEF e UNFPA estão em colaboração para capacitar líderes religiosos que são contra o casamento infantil – desviantes positivos – para influenciar outros líderes religiosos e comunidades associadas. As teorias sobre influência social em rede mostram maneiras mais eficazes de identificar quem, entre nós, pode ser um líder influente na sua própria rede. Assim, essas teorias ajudam na identificação dos mais influentes para a promoção de mudanças e intervenções efetivas.

O deslocamento forçado e a migração continuam a representar enormes desafios à escala global. Alguns desses desafios surgem a partir das barreiras que impedem refugiados de usar e partilhar as suas habilidades de uma forma significativa e produtiva, no seu novo lar. Uma dessas barreiras é a discriminação e agitação que podem ocorrer quando pessoas, na comunidade anfitriã, percebem que os refugiados estão a aceitar empregos longe dos nativos da região. Os insights comportamentais podem ser aplicados para ajudar a reverter problemas de percepção. O PNUD Jordânia, junto de parceiros, montou um programa piloto de “Intercâmbio de Habilidades” a partir da análise profunda das habilidades profissionais únicas que os refugiados sírios trazem para a Jordânia. Refugiados sírios são, então,  “treinados” como mentores para auxiliar jordanianos matriculados num programa de desenvolvimento de habilidades. Este piloto foi projetado para apoiar economicamente os sírios e impulsionar a sua estabilidade económica, ao mesmo tempo que ajuda os jordanianos a desenvolverem meios de subsistência sustentáveis com as suas habilidades recém-desenvolvidas. Também ajudará os jordanianos a ver em primeira mão como os refugiados sírios contribuem para a sua comunidade. O PNUD e a UNBI estão a alavancar as pesquisas em ciências comportamentais, ao mostrar oportunidades para esses tipos de trocas informais e trabalho interdependente em direção a um objetivo comum que pode ajudar a quebrar preconceitos e estereótipos.

Não é preciso ir longe para perceber a gravidade das crises humanitárias. Em momentos incertos, destaca-se a importância de iniciativas governamentais e privadas, em parceria com organizações locais.

No Brasil, em parceria com a Plataforma R4V, composta por 158 agências das Nações Unidas e diferentes organizações civis, o Plano de Resposta a Refugiados e Migrantes regional prevê a necessidade de US$ 1,44 bilhão para atender refugiados e migrantes da Venezuela em vulnerabilidade e apoiar as comunidades que os recebem.

Estamos a caminhar num mundo em que a responsabilidade social não recai apenas sobre o indivíduo ou sobre iniciativas governamentais, mas também sobre a parceria entre diferentes setores, inclusive com fins lucrativos. Independentemente de como essas parcerias são formadas, a troca de informações e intervenções entre segmentos exige o entendimento da ação e da resposta humana através das ciências comportamentais.