8 de março: a assimetria no viés de gênero

“Ao adotar o conceito de gênero como referência para a análise, procurou-se chamar a atenção para a construção social e histórica do feminino e do masculino e para as relações sociais entre os sexos, marcadas em nossa sociedade por uma forte assimetria.” – Farah, 2004

É possível perceber quando estamos “sofrendo” dos nossos vieses? E dos nossos vieses de gênero? Quem é Farah? Podemos adiantar: são respostas difíceis!

Frequentemente, usamos informações prévias, estereótipos e suposições para concluir nosso raciocínio e tomar decisões, e fazemos isso sem perceber. Um exemplo disso é: a citação utilizada no começo desse texto é de uma professora e pesquisadora brasileira, e a informação “Farah, 2014” pode não ser suficiente para saber quem ela é, fazendo com que essa lacuna seja preenchida por outras informações, na maioria das vezes informações padrão, ou seja, aquelas que “geralmente são” reais. Mas isso pode levar a erros. Ainda mais quando estão associados a conceitos que podem dificultar nossa intuitividade, como gênero, a cor da pele e outros fatores. Assim, uma pessoa poderia facilmente assumir, em razão de um viés de gênero, que Farah é um homem, simplesmente por estar acostumada a ver mais homens citados em trabalhos científicas.

Essa confusão ocorre pelas inevitáveis associações e não associações que todos fazemos, sejam elas positivas ou negativas, e que podem estar erradas. Além disso, apesar de automáticas, essas associações podem beneficiar mais um grupo do que o outro, causando uma assimetria nas associações. E é sobre essa assimetria causada pelos vieses de gênero que vamos falar.

Isso ocorre porque enquanto os homens carregam vieses positivos sobre algumas tarefas, isto é, são valorizados por realizá-las, essas mesmas tarefas são vistas apenas como obrigações para as mulheres. Por exemplo, uma mulher que leva o filho para a escola versus um homem que leva o filho para escola, vão receber percepções diferentes mesmo executando o mesmo comportamento.

Além disso, é muito comum ouvir coisas como “essa mulher é forte, é uma dama de ferro!”. Como o apelido dado à política britânica Margaret Thatcher por ser alguém com posicionamento político firme. Existe a tentativa de escrever algo que pode ser interpretado como: apesar de dama, ela é de ferro! Como se ser uma dama fosse algo oposto a ser forte ou firme, associando assim o padrão de ser mulher ao frágil, ao delicado ou ao feminino. Em contrapartida, é ofertado aos homens uma norma de força, brutalidade e masculinidade, posicionando os homens como um grupo forte, mas que não é necessariamente uma verdade.

Por isso, e por outras questões, produzir intervenções e gerar incentivos que vão na direção contrária ao “padrão” construído sobre gênero, é fundamental para alcançarmos uma sociedade onde nascer homem ou mulher não vai ser um limitador das oportunidades que você vai ter ao longo da vida.

Nesse 8 de março, a CLOO reitera o seu compromisso com a construção de um mundo onde seu gênero não seja um fator limitador da sua existência. Por isso, a CLOO vem desenvolvendo pesquisas e estratégias para contribuir para um mundo mais equânime e igualitário nas questões de gênero. Lembramos, porém, que o estudo sobre gênero não se limita ao estudo sobre as mulheres, e que gênero não é binário e deve ser sempre estudado sob uma lente interseccional. Mas, infelizmente, as mulheres ainda são uma maioria que sofre vários tipos de violência, como a deslegitimidade acadêmica e intelectual, o assédio físico e moral nas organizações, o silenciamento social e político, e a violência doméstica.

Apoiar, incentivar, e promover diálogos e espaços para falar sobre a igualdade entre gêneros já é um começo para mudar o mundo. Nesse 8 de março, considere novos horizontes sobre as pessoas e questione seus vieses. Você também é parte da construção de um futuro mais seguro e justo para todes!