CLOO World Humanitarian Day

World Humanitarian Day – Como as Nações Unidas Abraçaram as Ciências Comportamentais

Ontem, dia 19/08, foi comemorado o World Humanitarian Day – Dia Mundial Humanitário. A cantora Beyoncé, nomeada embaixadora da causa, já gravou até um videoclipe ao vivo na sede das Nações Unidas. Mas o que podemos aprender a partir das Ciências Comportamentais para a aplicação de ações de voluntariado?

Em 19 de agosto de 2003, Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissionário das Nações Unidas, junto de 21 funcionários e colaboradores da ONU morreram durante o cumprimento de uma missão de paz em Bagdá. O acontecimento chocante viria a impulsionar a comemoração do Dia Mundial Humanitário. Comemorado pela primeira vez em 2009, o OCHA, Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, lidera o planejamento e orientação das celebrações da data.

É claro que tratava-se de um caso extremo. Porém, para que possam honrar o acontecimento e todos os esforços das Nações Unidas na aplicação de ações humanitárias, entendemos a necessidade de impulsionamento de melhorias sociais, econômicas e ambientais a partir do entendimento profundo do que leva públicos específicos a se envolverem social e emocionalmente com programas voltados para essas melhorias.

As ciências comportamentais revelam que mesmo mudanças pequenas, sutis e por vezes contra intuitivas na forma como mensagens são estruturadas podem ter um impacto desproporcional nas decisões que tomamos e nas ações que realizamos. Pesquisadores no Reino Unido, por exemplo, desenvolveram um projeto com o objetivo de motivar a diminuição dos gastos de energia em casa. O método utilizado foi simplesmente a comparação – especificamente, dizendo aos consumidores como seu uso de energia em comparação com o de seus vizinhos levou a uma redução significativa no consumo de energia. Na mesma linha, um estudo da Equipe de Ciências Sociais e Comportamentais da Casa Branca (SBST) mostrou que indicar aos veteranos estadunidenses o ganho de um benefício durante seus anos de serviço militar levou a um aumento de 9% no acesso a aplicativos para o acesso ao benefício, em comparação a simplesmente dizer que esses eram elegíveis a ele. Com base no sucesso desses programas, em janeiro de 2016, Ban Ki-moon, o então Secretário-Geral da Nações Unidas, contratou o primeiro Conselheiro das Ciências Comportamentais da ONU, como uma forma de desenvolvimento e reconhecimento da importância dos insights das ciências comportamentais para discussões políticas e logísticas. A United Nations Behavioral Insights (UNBI) foi então lançada, uma equipe de especialistas empenhados na tradução das percepções das ciências comportamentais em programas mais eficazes e eficientes.

GreenCrowds, a primeira plataforma de crowdfunding social do Equador, por exemplo, visa aproveitar o poder das multidões para apoiar projetos inovadores de base rural que protegem o meio ambiente ao mesmo tempo que fortalecem identidades culturais locais. É apoiado pelo Programa de Pequenos Subsídios do Fundo para o Meio Ambiente Global e implementado pelo PNUD. Por meio desta plataforma, empreendedores preocupados com o meio ambiente no Equador têm a oportunidade de postar projetos que precisam de financiamento no site do GreenCrowds. Durante sua primeira campanha, o GreenCrowds não gerou financiamento suficiente para o sucesso dos projetos comunitários. A UNBI, portanto, elaborou comunicações para doadores em potencial de forma a aumentar a motivação para contribuir, enquanto reduz barreiras percebidas, como o tempo e o esforço necessários para doar. As mensagens de e-mail transmitem que doar é uma ação socialmente normativa e pode ser realizada por meio de uma ação simples, imediata e única. Além disso, os e-mails conectam doadores em potencial a histórias vívidas e detalhadas de pessoas e projetos que precisam de financiamento, uma forma eficaz de humanizar as questões e mobilizar doações.

A UNBI, em parceria com a UNICEF e o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) identificou pontos estratégicos para envolver e mudar crenças e atitudes de pais e membros de diferentes comunidades sobre o casamento infantil no sul da Ásia, Oriente Médio e África. Pesquisas em ciências comportamentais mostram que, da mesma forma que o enquadramento de uma mensagem pode influenciar significativamente as atitudes e crenças daqueles que as recebem, as características do mensageiro também influenciam na percepção dos receptores. Nesse caso, o mensageiro deve ser alguém com credibilidade social e influência moral, já que estará desafiando normas preestabelecidas sobre o casamento infantil. Dado o forte papel histórico da religião na condução de normas culturais e no fornecimento da orientação moral, envolver líderes religiosos pode ser uma abordagem poderosa para promover mudanças nas atitudes e ações das pessoas, juntamente com políticas e legislações contra o casamento infantil. Dessa forma, UNBI, UNICEF e UNFPA estão colaborando para capacitar líderes religiosos que já são contra o casamento infantil – desviantes positivos – para influenciar outros líderes religiosos e comunidades associadas. As teorias sobre influência social em redes mostram maneiras mais eficazes em identificar quem entre nós pode ser um líder influente em sua própria rede. Assim, essas teorias ajudam na identificação daqueles mais influentes para a promoção de mudanças e intervenções efetivas.

O deslocamento forçado e a migração continuam a representar enormes desafios em escala global. Alguns desses desafios surgem a partir das barreiras que impedem refugiados de usar e compartilhar suas habilidades de uma forma significativa e produtiva em seu novo lar. Uma dessas barreiras é a discriminação e agitação que podem ocorrer quando pessoas na comunidade anfitriã percebem que os refugiados estão aceitando empregos longe dos nativos da região. Os insights comportamentais podem ser aplicados para ajudar a reverter problemas de percepção. O PNUD Jordânia, junto de parceiros, montou um programa piloto de “Intercâmbio de Habilidades” a partir da análise profunda das habilidades profissionais únicas que os refugiados sírios trazem para a Jordânia. Refugiados sírios são então treinados como mentores para auxiliar jordanianos matriculados em um programa de desenvolvimento de habilidades. Este piloto foi projetado para apoiar economicamente os sírios e impulsionar sua estabilidade econômica, ao mesmo tempo que ajuda os jordanianos a desenvolverem meios de subsistência sustentáveis com suas habilidades recém-desenvolvidas. Também ajudará os jordanianos a ver em primeira mão como os refugiados sírios contribuem com sua comunidade. O PNUD e a UNBI estão alavancando pesquisas em ciências comportamentais, mostrando que oportunidades para esses tipos de trocas informais e trabalho interdependente em direção a um objetivo comum pode ajudar a quebrar preconceitos e estereótipos.

Não é preciso ir longe para perceber a gravidade das crises humanitárias, tampouco para ajudar aqueles vitimados por elas. Em momentos incertos, destaca-se a importância de iniciativas governamentais e privadas em parceria com organizações locais.
No Brasil, em parceria com a Plataforma R4V, composta por 158 agências das Nações Unidas e diferentes organizações civis, o Plano de Resposta a Refugiados e Migrantes regional prevê a necessidade de US$ 1,44 bilhão para atender refugiados e migrantes da Venezuela em vulnerabilidade e apoiar as comunidades que os recebem.

A CLOO – Behavioral Insights Unit entende que o Dia Mundial Humanitário, aliado a ações voluntárias e ao crescente debate do ESG como prática organizacional em iniciativas privadas representa uma quebra de paradigmas. Estamos caminhando rumo a um mundo em que a responsabilidade social não recai apenas sobre o indivíduo ou sobre iniciativas governamentais, mas também a parceria entre diferentes setores, inclusive aqueles com fins lucrativos. Independentemente de como essas parcerias são formadas, a troca de informações e intervenções entre segmentos exige o entendimento da ação e da resposta humana através das ciências comportamentais.