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Estou tão bem aqui! Impacto do ambiente físico na saúde e bem-estar.

Como é que os ambientes que criamos e mantemos, como a nossa casa, escritório ou escola, afetam o nosso bem-estar? Que características dos lugares e espaços melhoram ou prejudicam o bem-estar humano?

O ambiente físico que nos envolve, construído ou natural, e que pode ser mantido ou modificado, tem um verdadeiro impacto na nossa saúde física e psicológica, assim como nas nossas relações sociais - dimensões que contemplam a definição de bem-estar segundo a Organização Mundial de Saúde.


Boa parte da investigação científica que relaciona a psicologia com o ambiente lida com questões como as mudanças climáticas e a sustentabilidade ambiental, com vista a encorajar o comportamento pró-ambiental, isto é, um comportamento que prejudique o ambiente o mínimo possível, ou até que o beneficie. No entanto, a lente utilizada no presente artigo é outra. O ambiente é aqui concebido como a “alavanca” do resultado: a saúde e o bem-estar pessoal. O foco é em compreender como o ambiente que nos rodeia influencia o nosso bem-estar.


Aspetos do ambiente podem ser pensados estrategicamente, de forma a melhorar significativamente o dia-a-dia de pessoas com determinados problemas de saúde ou dificuldades específicas. Por exemplo, mais de metade da população portuguesa adulta tem excesso de peso, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística. Para além disso, assistimos a um agravamento do envelhecimento da população. As mesmas tendências verificam-se a nível mundial. Os desafios enfrentados por populações caracterizadas por excesso de pesoenvelhecimento têm atraído o trabalho de um número crescente de psicólogos ambientais e designers, que trabalham na criação de ambientes que possam atenuar algumas das dificuldades sentidas, por exemplo, criando espaços mais acessíveis e adequados a pessoas idosas ou pessoas com problemas de mobilidade.


Os espaços podem também ser pensados de modo a aumentar as oportunidades das pessoas fazerem atividade física como parte do seu dia-a-dia (facilitando, por exemplo, a caminhada, o ciclismo, ou a utilização de transportes).


No entanto, a psicologia ambiental tem um potencial de aplicação ainda mais amplo ao nível da saúde e bem-estar. Existem estudos que indicam que alterações estratégicas no ambiente promovem melhorias na saúde das pessoas. Um exemplo conhecido é o estudo dos efeitos da natureza nos hospitais. Desde meados dos anos 70 têm sido realizadas investigações sobre o impacto da natureza ao nível da saúde física e psicológica. Roger Ulrich foi um dos primeiros investigadores a interessar-se pelo tema. Este investigador comparou pacientes que viam da janela do seu quarto uma paisagem natural (árvores), com pacientes que não tinham acesso visual a uma paisagem natural e que apenas viam paredes de tijolos através das suas janelas. Os resultados foram surpreendentes. O acesso visual à natureza resultou numa estadia hospitalar pós-operatória mais curta e menor consumo de analgésicos fortes, em comparação com os pacientes que apenas viam paredes de tijolos. Uma diferença tão simples no ambiente teve um impacto enorme a nível da recuperação e bem-estar dos pacientes hospitalizados. Para além disso, este impacto refletiu-se a nível económico - como os analgésicos mais fortes são mais caros, houve uma redução dos custos de saúde.


Uma vez que o ambiente que nos envolve tem um efeito direto na saúde e bem-estar humano, um número crescente de instalações têm vindo a ser estudadas sob esta perspetiva, desde hospitais, a centros especializados no tratamento de Alzheimer e demência, lares de idosos, entre outros.


 


A Influência dos ambientes quotidianos


Existem outros espaços nos quais as pessoas passam grande parte do seu tempo, cujo ambiente pode ter um enorme efeito (positivo ou negativo) na sua saúde e bem-estar, como por exemplo, o local de trabalho, a casa e a escola.


Trabalho. A relação entre o ambiente, a saúde e o bem-estar em contexto de trabalho é um tema extremamente relevante, especialmente tendo em conta que  a maioria das pessoas passa pelo menos um terço do seu tempo no local de trabalho.  Existem evidências de que a satisfação com a vista que se tem da janela do local de trabalho influencia a satisfação com o trabalho e a produtividade. Os resultados demonstram que uma vista de um ambiente verde (visão dominada por 'céu', 'árvores', 'flores' e 'ambiente de parque’), em oposição a um ambiente construído, como vista para prédios, ou sem visão para o exterior, está associada a uma maior a satisfação com o trabalho e, consequentemente, a uma maior capacidade de trabalho. Outra investigação indica que um tipo de iluminação que permita os funcionários ajustarem individualmente a intensidade da luz no seu local de trabalho produz efeitos positivos, em comparação com um tipo de iluminação indireta. Esta pequena diferença está associada a maior satisfação e comprometimento dos  funcionários com o seu trabalho e menor frequência de sintomas de doença física. Recentemente, tem-se também investigado como a arquitetura dos espaços de trabalho pode ser desenhada de forma a facilitar a cooperação e a troca de ideias entre colaboradores, por um lado, e a concentração individual, por outro lado.


Casa. Também o ambiente doméstico tem uma enorme relevância para o bem-estar humano. A casa é onde as pessoas passam a maior parte do tempo, o local de contato com os membros mais importantes da rede familiar e social e, para a maioria das pessoas, representa o seu maior investimento financeiro. Dada a sua importância, é crucial ter em conta como o ambiente residencial influência a saúde das pessoas que lá habitam.  Há evidências, por exemplo, que residir numa casa húmida e com sinais de bolor/mofo aumenta o risco de depressão. Outros estudos indicam que a acumulação excessiva de bens não necessários em casa afeta negativamente a saúde, a higiene e a qualidade de vida dos familiares. Estes dados indicam que as condições ambientais da habitação são determinantes a nível de saúde mental.


Escola. O ambiente físico escolar tem um impacto significativo no bem-estar dos alunos. Por exemplo, um estudo revelou evidências de que a altura do teto e a cor das paredes afeta o comportamento cooperativo das crianças. As crianças observadas numa sala de aula com um teto mais baixo e com as paredes pintadas de branco demonstraram um nível mais elevado de cooperação na produção conjunta de um produto ou na resolução de um problema do que as que estavam numa sala com o teto mais alto e paredes vermelhas. Noutro estudo concluiu-se que os alunos cometiam menos erros ao trabalhar em salas pintadas com a sua cor preferida. Outras variáveis que têm sido exploradas no contexto educacional são a densidade de alunos na escola, o ruido, o odor e a qualidade do ar. O ambiente da sala de aula afeta o comportamento e a aprendizagem dos alunos, pelo que o estudo científico dos seus efeitos é cada vez mais pertinente.


 


O Impacto do Ambiente: Demasiado importante para negligenciar


Os dados apresentados no presente artigo são apenas alguns exemplos dos trabalhos que têm sido desenvolvidos na área de intersecção entre a Psicologia, o Design e a Arquitetura de espaços. Estes estudos mostram que o ambiente físico não é algo marginal ou periférico nas nossas vidas, mas sim um aspeto que nos afeta profundamente e que tem o potencial de nos tornar mais felizes e saudáveis. No mesmo sentido, nudges ambientais desenvolvidos com base nos princípios da Economia Comportamental e Psicologia têm-se revelado eficazes no incentivo de comportamentos que promovem o bem-estar (um tema que será desenvolvido num próximo artigo).


Tal como Roger Ulrich sublinhou, o design de instalações tradicionalmente enfatiza a funcionalidade e a eficiência dos espaços. Porém, essa ênfase muitas vezes produz recursos que são funcionalmente eficazes, mas que podem ter efeitos psicologicamente negativos.


Negligenciar o papel que a psicologia pode ter no desenvolvimento de um espaço físico significa perder uma oportunidade de intervenção terapêutica e social, podendo no pior dos casos levar à criação de ambientes físicos prejudiciais ao bem-estar humano. A investigação científica nesta área pode levar a que seja possível a criação, alteração e manutenção eficiente de ambientes que façam com que as pessoas prosperem, potenciando um melhor bem-estar físico, psicológico e social.


 

Criado por

Maria Leonor Pinheiro, aluna de mestrado de Cognição Social Aplicada na Universidade de Lisboa e estagiária na CLOO - Behavioral Insights Unit.

Referências

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