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Breve Introdução à Economia Comportamental

Nos últimos anos tem-se assistido a uma proliferação de publicações, eventos e de empresas e agências governamentais ligadas à Economia Comportamental.
A área tem atraído investigadores, decisores executivos e policy-makers, e gerado um debate saudável sobre o potencial e limitações da sua aplicação em campos tão distintos como saúde, educação, finanças, bem-estar, entre muitos outros.

O impacto desta área foi mais uma vez destacado com a atribuição do prémio Nobel da Economia a Richard Thaler, em 2017, precisamente pelos seus contributos no desenvolvimento do campo da Economia Comportamental. Thaler sucede a outros dois autores fundamentais para o desenvolvimento deste campo: o economista Herbert Simon, premiado em 1978 e o psicólogo Daniel Kahneman, galardoado em 2002.


Estes três autores fazem parte de um conjunto de investigadores notáveis cujo trabalho tem sido central para a compreensão de aspetos psicológicos, antes não considerados relevantes por economistas, para explicar e prever comportamentos humanos. Os economistas neoclássicos assumem que os “agentes económicos” (ou seja, as pessoas) agem de modo essencialmente racionais, usando uma capacidade aparentemente ilimitada para processar e analisar a informação disponível e tomar a melhor decisão, de acordo com as suas preferências (Mullainathan & Thaler, 2000). Pense em quando vai ao supermercado para comprar produtos alimentares. O leitor estará, como muitas outras pessoas, preocupado com o quão saudável é a comida que está a levar para casa. Se realmente fôssemos essencialmente racionais e tivéssemos esta enorme capacidade de processar informação, a escolha de alimentos mais saudáveis dependeria da quantidade de informação que possuíssemos a respeito de dieta, saúde e nutrição, para além, das nossas preferências e da nossa restrição orçamental.


De facto, historicamente, a forma mais comum de tentar promover consumos mais saudáveis tem sido providenciar mais informação ao consumidor (Just, Mancino & Wansick, 2007). Contudo, os rótulos alimentares tradicionais que incluem informação nutricional completa e descritiva são menos preferidas pelos consumidores e pouco eficazes na promoção de compras mais saudáveis (Campos, Doxey e Hammond, 2011). Para além disso, já foi mostrado que a colocação de elementos gráficos como um sistema simplificado em forma de semáforo em rótulos alimentares (a cor verde sinalizando alimentos saudáveis e a cor vermelha sinalizando alimentos pouco saudáveis) ajuda os consumidores a fazer escolhas mais saudáveis (van Herpen & van Trijp, 2011). Este exemplo demonstra que não é suficiente tornar a informação acessível às pessoas, mas que a alteração efetiva de comportamentos depende do tipo (complexidade) de informação e da forma como é comunicada (visual ou escrita).


Um dos motivos para que isto aconteça é o facto da nossa capacidade cognitiva ser limitada, algo sugerido por Herbert Simon em 1955.  Por exemplo, temos dificuldade em tomar decisões quando estamos perante demasiadas escolhas e/ou informação, e acabamos, na maior parte das vezes, por decidir de forma rápida, automática e inconsciente, usando apenas parte da informação disponível.


Nos anos 70, Amos Tversky e Daniel Kahneman (1974, 1979, 1986) descreveram um conjunto de regras mentais automáticas a que chamamos de heurísticas, que revolucionaram por completo o modo como olhamos para a tomada de decisão. A investigação na área de Julgamento e da Tomada de Decisão têm permitido elucidar os mecanismos cognitivos, emocionais e sociais que efetivamente levam as pessoas a tomar muitas das suas decisões. Sabemos hoje, por exemplo, que as pessoas valorizam desproporcionalmente mais benefícios imediatos a benefícios superiores no futuro, são excessivamente otimistas, são influenciadas pelas escolhas dos outros. Estes enviesamentos ou atalhos na tomada de decisão fazem com que o comportamento humano se desvie, regular e sistematicamente, do comportamento esperados por economistas.


Estes desvios aos comportamentos considerados racionais não são, porém, uma revelação de fraqueza humana. Estes atalhos cognitivos surgiram da necessidade evolutiva de tomar decisões e agir de forma rápida, em contextos de incerteza e sem gastar muitos recursos (tempo ou recursos cognitivos). De modo diferente da pessoa ideal racional, a pessoa real é mais falível, mas extremamente eficaz e adaptada ao seu meio.  


Este novo conhecimento é uma oportunidade para compreender melhor o comportamento humano no seu contexto e agir sobre os fatores que o influenciam. Esta “chamada para a ação” é um dos aspetos que faz com que a Economia Comportamental tenha realmente impacto no mundo. Não é uma área restrita a uma agenda académica, mas cada vez mais é uma área de aplicação do conhecimento e dos métodos científicos no desenvolvimento de políticas e intervenções que produzam alterações benéficas na sociedade.


A Behavioral Insights Team (BIT) no Reino Unido foi a primeira “unidade” especializada no desenvolvimento de políticas comportamentais alicerçadas na Economia Comportamental. Os seus resultados têm sido notáveis e têm contribuído para o aparecimento de muitas outras unidades por todo o mundo, incluindo a CLOO Behavioral Insights Unit em Portugal. Criada em 2010, inicialmente como parte do governo britânico no executivo de David Cameron, a BIT é hoje reconhecida internacionalmente como uma peça chave no desenvolvimento de políticas comportamentais com claros benefícios económicos e sociais. De entre vários resultados positivos podemos destacar o aumento de pagamento de impostos em dívida quando, na carta enviada aos devedores, passou a ser incluída a informação de que a maior parte das pessoas paga os seus impostos a tempo e que a maior parte dos restantes devedores já tinha regularizado a sua situação (Hallsworth et al., 2014). Outra intervenção bem-sucedida resultou no aumento do número de doadores de órgãos quando na mensagem de apelo à doação é perguntado “se precisasse de um transplante de órgãos, gostaria de ter um?” (Behavioral Insights Team, 2013). Um último exemplo é o aumento do número de candidaturas a emprego por parte de desempregados, quando passaram a estabelecer e a assinar um compromisso com os técnicos que os acompanham (Behavioral Insights Team, 2015).


Há alguns aspetos que distinguem estas intervenções de intervenções mais tradicionais. Primeiro, o seu custo de implementação é baixo, pois são intervenções de operacionalização simples. Segundo, apesar desta aparente simplicidade, são intervenções baseadas em princípios comportamentais estudados e testados. Terceiro, estas intervenções utilizam testes controlados e aleatorizados, que consistem na aplicação controlada da intervenção a um grupo de pessoas escolhido aleatoriamente de uma população. Este método permite medir se a intervenção foi eficaz comparando os resultados do grupo intervencionado com um grupo de pessoas que não foi alvo da intervenção. Por fim, nenhuma das intervenções limita a liberdade de escolha das pessoas (estas podem continuar a pagar tarde os impostos, com as mesmas punições, e podem continuar a não ser doadoras de órgãos e a não se candidatarem a vagas de emprego) e todas elas visam melhorias individuais e coletivas.


Estes aspetos caraterizam um tipo de intervenção baseada na Economia Comportamental denominada “nudge” (Thaler e Sunstein, 2008), por dizer respeito a pequenas alterações no contexto que “empurram” as pessoas na direção certa. Partindo destes exemplos, um desafio interessante é compreender de que modo os insights sobre o comportamento humano podem melhorar a Educação. A Educação é um dos principais investimentos que qualquer pessoa ou Estado pode fazer, mas há aspetos comportamentais que podem impedir ou facilitar os comportamentos necessários para capitalizar este investimento. Percebe-se hoje que existe um enorme potencial para o desenvolvimento de políticas comportamentais na área da educação, englobando todos os agentes da comunidade escolar (professores, pais, alunos e outros funcionários) na criação de estratégias mais eficazes para o sucesso escolar, em casa, na escola e na gestão escolar.

Criado por

João Matos, MSc

Diana Orghian, PhD

Carlos Mauro, PhD

Referências

Mullainathan, S. and Thaler, R. (2000). Behavioral Economics (NBER working paper No.7948)

Just, D. R., Mancino, L. and Wansink, B. (2007). Could Behavioral Economics Help Improve Diet Quality for Nutrition Assistance Program Participants? USDA-ERS Economic Research Report No. 43. Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=1084548 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.1084548

Campos, S., Doxey, J. and Hammond, D. (2011). Nutrition labels on pre-packaged foods: a systematic review. Public Health Nutrition, 14(08), pp.1496-1506.

Vasiljevic, M., Pechey, R. and Marteau, T. (2015). Making food labels social: The impact of colour of nutritional labels and injunctive norms on perceptions and choice of snack foods. Appetite, 91, 56-63.

Simon, H. (1955). A Behavioral Model of Rational Choice. The Quarterly Journal of Economics, 69(1), 99.

Tversky, A. and Kahneman, D. (1974). Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases. Science, 185(4157), 1124-1131.

Kahneman, D. and Tversky, A. (1979). Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk. Econometrica, 47(2), p.263.

Tversky, A. and Kahneman, D. (1986). Rational Choice and the Framing of Decisions. The Journal of Business, 59(S4), p.S251.

Hallsworth, M., List, J. A., Metcalfe, R. D. & Vlaev, I. (2014). The behavioralist as tax collector (NBER Working Paper no. 20007).

Behavioural Insights Team, Department of Health, Driver and Vehicle Licensing Agency & NHS Blood and Transplant (2013). “Applying Behavioural Insights to Organ Donation: preliminary results from a randomised controlled trial.” Cabinet Office

The Behavioural Insights Team. (2017). Update Report 2016–2017. Behavioural Insights Limited.

Thaler, R. H., & Sunstein, C. R. (2009). Nudge: Improving decisions about health, wealth, and happiness. New Haven: Yale University Press