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Aplicações da Economia Comportamental ao Investimento Parental

APLIAÇÕES DA ECONOMIA COMPORTAMENTAL AO INVESTIMENTO PARENTAL

Tente recordar-se de como são habitualmente as suas semanas? Passam num piscar de olhos? Se tiver um filho pequeno provavelmente chega ao fim de semana e apercebe-se de que terminou mais uma semana e de que não realizou muitas e relevantes atividades que planeou com o seu filho. Tinha planos de ler com ele o livro novo que recebeu, de voltar a aquele trabalho de casa de Quarta-feira que não ficou bem consolidado, planeava irem àquela peça de teatro, de começar a pedir-lhe para fazer as contas do supermercado para treinar a somar, e rinha tantos outros planos. Seja como pai, professor, o administrador escolar, todos nos identificámos um pouco com esta sensação.

Hoje em dia, a educação nas escolas tenta criar, cada vez mais, condições de igualdade de oportunidade para todos os seus alunos. No entanto, as experiências de aprendizagem às quais as crianças são expostas em casa variam drasticamente de família para família [1]. As causas para estas diferenças são diversas: diferenças no tempo dedicado às crianças, na educação e informação sobre a educação que os pais têm, no estrato socioeconómico da família, etc. Sabemos ainda que o investimento parental (que engloba, por um lado, investimento de recursos e, por outro, investimento psicológico e emocional) em idade pré-escolar tem efeito positivos no desempenho durante o ensino primário que se refletem nas competências motoras, sociais, emocionais, numéricas e de literacia das crianças [1,2,3]. 


Atenuar estas diferenças não é, no entanto, uma tarefa fácil e poucas intervenções têm efeitos significativamente positivos [4]. E as que funcionam têm habitualmente limitações como é o caso do custo elevado [5], duração e frequência insuficientes para promover mudanças duradouras, dificuldade das famílias em aceder a estes programas e desistência precoce dos programas [6]. É neste contexto que a Economia Comportamental e a Psicologia nos fornecem ferramentas para criar intervenções eficazes de baixo custo que tiram proveito dos conhecimentos que temos acerca da forma como as pessoas pensam, sentem e tomam decisões [7,8]. A principal promessa desta nova abordagem é facilitar a mudança comportamental, seja ela a criação de novos hábitos e comportamentos, a interrupção de comportamentos disfuncionais existentes ou intensificar comportamentos positivos já existentes. Uma das abordagens da Economia Comportamental baseia-se em analisar os comportamentos humanos e o contexto em que esses ocorrem com o objetivo de decompor as ações desejadas em várias tarefas mais simples. As ações que o dia-a-dia de uma mãe e um pai requerem são variadas e complexas. Esta sobrecarga cognitiva constante leva a fadiga, lapsos, distrações e esquecimentos. Outra consequência dessa sobrecarga é a inércia que resulta de uma paralisia do processo de tomada de decisão (perante a dificuldade em decidir, evita-se tomar uma decisão de todo). Simplificar estas ações decompondo-as em passos mais simples e mais fáceis de alcançar pode, como mencionado acima, encorajar, facilitar e reforçar comportamentos desejados.


Barreiras comportamentais ao investimento parental


Algumas das barreiras comportamentais que têm que ser ultrapassadas para os pais assumirem um papel mais ativo na aprendizagem dos seus filhos é a gratificação ou recompensa tardia do investimento parental. Os benefícios do investimento parental não são imediatos, isto é, pais e filhos têm que esperar anos (ou décadas) para colher os frutos (em termos de carreira, salário, e sucesso na vida adulta) e obter a satisfação associada a esse investimento. O investimento parental implica um alto nível de autorregulação e autocontrolo por parte dos pais, uma vez que no dia-a-dia há tantas outras atividades bem mais apelativas e gratificantes no imediato (ver o tal filme que nos foi recomendado, telefonar a um amigo ou familiar para pôr a conversa em dia ou simplesmente dar um passeio relaxante na praia). E sabemos da investigação em Psicologia que as pessoas tendem a evitar atividades com recompensas tardias [9].


Adotar práticas parentais positivas implica, muitas vezes, mudar comportamentos cristalizados e hábitos, ou seja, implica contrariar o status quo do qual todos nós somos constantemente vítimas [10]. Contrariar o status quo é difícil, mesmo quando os pais querem mudar o seu comportamento de forma a ir ao encontro dos interesses da criança.
Uma outra barreira comportamental é a atenção e recursos cognitivos limitados dos pais [11]. Em muitas situações, os pais têm a intenção de ler com os filhos ou ajudá-los nos trabalhos de casa, mas devido a um elevado número de outras tarefas e preocupações, não têm recursos cognitivos para, de facto, agir. Adicionalmente e no mesmo sentido, a investigação mostra que existe uma lacuna entre as intenções que as pessoas explicitam e as ações que de facto realizam [12]. A falácia do planeamento [13,14] é um dos enviesamentos que se encontra na base dessa lacuna. As pessoas subestimam a quantidade de tempo que precisam para completar determinada tarefa e isso acontece porque ignoram a sua experiência passada com tarefas semelhantes quando fazem previsões para o futuro [14] (por exemplo, quando prevemos o tempo necessário para ir à Loja do Cidadão antes de ir aos parques com nosso filho e não consideramos idas anteriores à Loja do Cidadão em que as filas eram intermináveis).


A investigação também tem mostrado que a quantidade e qualidade da informação que pais têm sobre práticas parentais afetam a escolha da escola e os resultados subsequentes dos alunos [15]. De notar, que não só a complexidade da informação (utilização de termos técnicos, frases intrincadas, etc.), mas também a quantidade de informação a processar (tamanho do texto e a quantidade de conceitos necessária a reter para a compreensão da informação) afectam as nossas decisões.  Muitas vezes o impacto que a complexidade e da quantidade da informação têm nas nossas decisões é agravado pelas outras barreiras comportamentais acima mencionadas, levando ao desinvestimento dos alunos e dos pais na educação dos mesmos.


Como se pode apoiar os pais nas suas práticas parentais para educação?


Um tipo de intervenção que se distingue pela sua simplicidade, baixo custo e escalabilidade é o envio de mensagens de texto, sobretudo via telemóvel (SMS) mas também via email. O impacto de intervenções via telemóvel pode ser significativo tendo em conta é um equipamento que faz parte do dia-a-dia das famílias com uma taxa de cobertura nacional de 96% [16]. A outra vantagem das SMS é a possibilidade de criar intervenções com duração mais longa e com lembretes frequentes, dois aspetos cruciais na criação de novos hábitos. A utilização de SMS tem sido frequente no campo da mudança comportamental. A área da saúde tirou especial proveito desta ferramenta, aplicando-a a problemáticas como a perda de peso [17], adesão terapêutica [18] ou controlo glicémico [19]. As SMS funcionam como um auxílio de memória que nos recorda do comportamento que desejamos mudar ou implementar fornecendo informação simplificada, útil e atempada; dicas práticas e de simples execução; e material que ative conceitos relevantes (como é o caso das normas sociais e do compromisso) e mindsets específicos (como é o caso do mindset de desenvolvimento).


Exemplos de aplicações via SMS na educação


Em 2014 [20], os investigadores Benjamin York e Susanna Loeb, desenvolveram uma intervenção realizada nos Estados Unidos chamada READY4K!. Neste programa, pais de crianças em idade pré-escolar recebiam semanalmente três SMS com sugestões de atividades ligadas à literacia e ao conhecimento de palavras (como por exemplo procurar palavras que rimam ou descrever imagens de livros). Os resultados desta avaliação revelaram efeitos positivos no aumento do envolvimento parental em tarefas de aprendizagem e no desenvolvimento da alfabetização das crianças comparativamente ao grupo que recebeu mensagem placebo (com informação irrelevante ao envolvimento parental na aprendizagem, como é o caso da informação acerca da vacinação).


Numa outra intervenção, investigadores da Universidade de Chicago [21], entregaram a pais tablets com uma aplicação que continha mais de 500 livros na sua livraria digital. A seguir os pais eram divididos em dois grupos. Um primeiro grupo em que os pais 1) definiam objetivos semanais relativamente ao tempo que planeavam ler para os seus filhos, 2) recebiam diariamente mensagens de texto a recordar-lhes dos seus objetivos e, 3) recebiam, semanalmente, feedback visual acerca do tempo que tinham passado a ler para os seus filhos. Ainda, os pais que alcançavam os seus objetivos semanais recebiam uma mensagem com reconhecimento pessoal no tablet, para além de um reconhecimento social através de uma mensagem de texto de grupo. Em contraste, no segundo grupos os pais recebiam apenas o tablet com a mesma aplicação e as com instruções sobre como utilizá-la. Os resultados indicaram que os pais do primeiro grupo dedicaram em média 250% mais tempo a ler para os seus filhos do que os do segundo grupo, diferença que se manteve praticamente inalterada 3 meses após a conclusão da intervenção.


Em 2016 foi publicado o relatório de um projeto conjunto da Universidade de Harvard e da Universidade de Bristol (The Parent Engagement Project) [22]. Esta intervenção consistia no envio de SMS sobre datas de testes e exames, sobre assiduidade na entrega dos trabalhos de casa entre outro feedback acerca do desempenho do aluno. Comparativamente ao grupo que não recebia estas mensagens, o grupo intervencionado teve uma melhoria equivalente a um mês de aulas de matemática de avanço.


Ainda no contexto americano, Castleman e Page [23,24] desenvolveram uma intervenção que se enviava SMS personalizadas a alunos elegíveis à candidatura ao ensino superior e/ou a bolsas de estudo, relembrando-lhes os prazos de inscrição e de envio da documentação necessária para as candidaturas. Os autores verificaram que a taxa de estudantes que se matricularam em universidades e que receberam apoios financeira tinha sido maior no grupo que recebeu estas mensagens (aumento de 11% e 26% respetivamente) comparativamente ao grupo que não as recebeu.


Já no Reino Unido, a BIT [25, ver também 26] promoveu com sucesso uma intervenção baseada no envio de mensagens escritas com o objetivo de motivar a assiduidade e o sentimento de pertença social dos alunos. Os resultados revelaram um aumento significativo da assiduidade e aproveitamento do grupo intervencionado. Adicionalmente, desenvolveram uma intervenção na qual enviaram aos encarregados de educação e a outros apoiantes mensagens de texto a informá-los e lembrá-los que os alunos tinham uma semana particularmente exigente em que seria importante para eles contarem com o seu apoio. Os resultados provisórios desta intervenção revelaram um aumento de 11% da assiduidade do grupo de estudo em relação ao grupo não intervencionado.


Em Portugal, a CLOO, no âmbito de um protocolo com o EDULOG, planeia conduzir uma intervenção com pais e alunos do ciclo básico. O objetivo da intervenção é, incentivar, via a utilização de SMS, os pais a investirem mais em atividade de leitura com os seus filhos.


Conclusão e implicações práticas


As SMS são um facilitador comportamental que funciona como ativador ou gatilho de comportamentos desejados. Intervenções com base em SMS são fáceis de aplicar, são baratas e são escaláveis, e devido a esta combinação de características, achámos que que é uma ferramenta da qual a Educação em Portugal pode beneficiar tal como outros países beneficiaram. Mas em todas as intervenções acima mencionadas houve uma preocupação em medir o impacto da intervenção por via de comparações com grupos de participantes em tudo semelhantes ao grupo intervencionado exceto no facto de não terem sido submetidos à intervenção em causa. Este método é comumente conhecido entre investigadores como o método dos testes randomizados controlados (randomized controlled trials - RCT). Desta forma, controla-se a influência de fatores externos e pode-se concluir com maior segurança que as diferenças nos resultados entre os grupos se deveram principalmente à intervenção. Além de medir o impacto das intervenções, é crucial ter em conta as mudanças contextuais, isto é, uma intervenção que tenha funcionado nos Estados Unidos pode não funcionar em Portugal poderá exigir adaptações devido às suas especificidades culturais. Por isso as intervenções devem ser adaptadas e não replicadas para garantir que os resultados podem ser generalizados a novos contextos. 


Assim, terminamos este texto aconselhando os responsáveis escolares a 1) considerar esta nova abordagem fundamentada na Economia Comportamental como uma oportunidade para contribuir para uma educação de maior qualidade, 2) implementar intervenções comportamentais e testá-las sempre que possível, por mais promissoras que essas pareçam e 3) quando se revelarem eficazes, implementá-las a outras escalas, inclusivamente à escala nacional.

Criado por

Diana Orghian, PhD

João Matos, MSc

Carlos Mauro, PhD

Referências

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3. Melhuish, E.C., Phan, M. B., Sylva, K., Sammons, P., Siraj‐Blatchford, I., & Taggart, B. (2008). Effects of the home learning environment and preschool center experience upon literacy and numeracy development in early primary school. Journal of Social Issues, 64(1), 95- 114.
4. Duncan, G.J., Ludwig, J., & Magnuson, K.A. (2010). Child development. In P.B. Levine & D.J. Zimmerman (Eds.), Targeting investments in children: Fighting poverty when resources are limited (27-58). Chicago: The University of Chicago Press.
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