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A Conta-Gotas: Economia Comportamental e a Escassez de Água

“Se as pessoas até têm noção da dimensão do problema, porque é que não agem em concordância com essa atitude? A esta discrepância chamamos discrepância intenção-comportamento, e acontece porque o nosso comportamento é influenciado também por outros fatores que não apenas as nossas intenções ou atitudes”

Sabemos que o clima está a mudar, e já começámos a sentir os efeitos dessas mudanças. Os fenómenos meteorológicos estão a agravar-se, e em Portugal esta questão parece tocar-nos cada vez mais perto. O último ano foi um bom exemplo disso: a 30 de junho de 2017, foi declarada a existência de uma seca severa agrometeorológica no território de Portugal Continental, situação que atingiu períodos absolutamente críticos, nomeadamente no final de outubro de 2017, quando 75.2% do território continental estava oficialmente em seca extrema e os restantes 24.8% em seca severa, tendo esse sido o outubro mais seco dos últimos 20 anos; por outro lado, em março de 2018, o país testemunhou uma quantidade de precipitação 4.4 vezes superior ao valor médio mensal e temperaturas anormalmente baixas naquele que foi o segundo mês de março mais chuvoso desde 1931. Este agravamento tem trazido fenómenos meteorológicos cada vez mais extremados, com efeitos severos nas disponibilidades hídricas portuguesas: já em 2016, o Relatório de Estado do Ambiente mostrou que existem grandes desigualdades no que diz respeito ao volume de água disponível no país, tendo as Ribeiras do Oeste, Sado e Mira, Guadiana e Ribeiras do Algarve apresentado níveis de escassez de água moderada.


De facto, os fenómenos meteorológicos estão a tornar-se cada vez mais extremos e imprevisíveis. Apesar das intensas chuvas de março, Portugal viveu, no último ano, um período de quase 12 meses em que pouco ou nada choveu. Consequentemente, o problema não deve ser encarado como uma ausência total de precipitação. Trata-se, sim, do facto de os períodos de seca serem cada vez mais longos, o que tem levado as reservas de água a níveis mínimos. Eventualmente chove, naturalmente, mas até lá a disponibilidade de água para consumo é reduzida. Por outras palavras, o facto de chover intensamente durante um mês não anula a escassez de água que vivemos, da mesma maneira que um mês anormalmente frio não anula o crescente aquecimento global. É por isto que temos de ser capazes de gerir o consumo de água residencial de outra forma, mais regrada e responsável, para garantir que as reservas de água são suficientes durante períodos de seca que tenderão a ser cada vez maiores.


Este não é um problema apenas português, mas sim um problema mundial. A Comissão Europeia prevê que em 2030 metade das bacias hidrográficas na União atinjam a escassez de água. No Brasil, crises de abastecimento têm-se sucedido nos últimos anos, em parte devido à diminuição dos períodos de chuva; em São Paulo, por exemplo, registou-se em 2018 o verão menos chuvoso em 15 anos, que deixou o maior conjunto de reservatórios do estado a 39.6% da sua capacidade em agosto passado. A internacionalidade desta situação é bem exemplificada pelo caso da Cidade do Cabo, na África do Sul, onde longos períodos de seca e o consumo excessivo levaram a que fosse anunciado o fatídico Dia Zero: o dia em que a água disponível para consumo privado iria esgotar-se, e as torneiras iriam fechar (inicialmente previsto para abril de 2018 e posteriormente adiado para 2019).


Evidências mostram que a situação extrema que se vive na Cidade do Cabo deve-se sobretudo à má gestão da água, tanto a nível governamental, como a nível residencial: se, por um lado, é inegável que o clima está a mudar, também é cada vez mais claro que “é necessário desenvolver ferramentas de gestão da água que decision-makers e o público possam compreender e usar”.          


Uma Questão Comportamental


Numa entrevista à revista Sábado, o engenheiro ambiental Pedro Teiga afirmou que os padrões atuais de utilização de água são muito problemáticos, e que se poderão avizinhar cenários problemáticos caso a utilização de água a nível doméstico, industrial e agrícola se mantenha igual à do último ano. Isto significa que, embora a escassez de água seja um problema multidisciplinar, existe claramente uma componente comportamental a ter em conta – o consumo de água individual, em particular em contexto residencial. É nessa componente que a Psicologia e a Economia Comportamental podem ajudar.


A investigação nestas áreas tem demonstrado que, apesar da sua complexidade, é possível descrever, prever e mudar o comportamento humano, quando compreendemos aquilo que o motiva. Sabemos, por exemplo, que a tendência de um indivíduo para ter um determinado comportamento é diretamente influenciada tanto por fatores internos, tais como a perceção de controlo do indivíduo sobre esse comportamento e as suas atitudes em relação ao comportamento, como por fatores externos tais como aquilo que percebemos como sendo a norma social associada a esse comportamento (ou seja, aquilo que a maioria das pessoas faz).


Um Espaço entre Atitudes e Comportamentos


Um estudo realizado em 2018 pelo Instituto de Marketing Research para a Águas de Portugal demonstra existir uma clara dissonância entre as atitudes e os comportamentos dos portugueses em relação à água. Se, por um lado, as pessoas reconhecem que existe utilização excessiva, por outro lado, não tendem a revelar práticas de poupança e reconhecem que apenas se preocupam com a água quando há falhas.


Se as pessoas até têm noção da dimensão do problema, porque é que não agem em concordância com essa atitude? A esta discrepância chamamos discrepância intenção-comportamento, e acontece porque o nosso comportamento é influenciado também por outros fatores que não apenas as nossas intenções ou atitudes.


Até podemos ter todas as melhores intenções, mas agir de acordo com os nossos melhores interesses nem sempre é fácil. No caso do consumo de água, é cognitivamente exigente, por exemplo, estar sempre a contabilizar o tempo em que temos as torneiras abertas, ou não ceder à tentação de ficar mais 5 minutos no chuveiro debaixo de água quente.


Ir Atrás dos Vizinhos


Há uma força motivadora que não podemos ignorar quando queremos promover mudanças comportamentais. É um truísmo banal afirmar que as pessoas são animais sociais, mas de facto pouco nos motiva tanto como a necessidade de estarmos alinhados com os comportamentos daqueles que vemos como semelhantes a nós. Neste caso em particular, vermos o nosso consumo de água comparado com o dos vizinhos tem demonstrado ser uma ferramenta eficaz na redução do mesmo, particularmente em pessoas que consomem mais do que a média.


Ferraro e Price testaram este efeito em 2013, realizando uma intervenção assente na utilização de comparações e normas sociais nas faturas da água recebidas em residências na Geórgia, USA. Esta intervenção apresentou um custo máximo de 0.84€ por residência, mas resultou numa redução do consumo de água residencial que ficou entre os 3,747 e os 6,586 litros. Embora este estudo tenha decorrido apenas durante o verão de 2007, um follow-up desta intervenção demonstrou que os efeitos ainda eram visíveis 4 anos após a mesma, o que significa uma relação custo/benefício de 0.20€ por cada 3,785.41 litros de água poupados. Num outro estudo realizado em 2014 pela OCDE, em parceria com o Banco Mundial e a organização Ideas42, no qual se utilizaram novamente comparações sociais, concluiu-se que estas são mais eficazes quando a referência é a média do consumo no bairro dos residentes do que na cidade inteira.


Outra evidência da forma como o nosso comportamento é influenciado por fatores externos como normas sociais é o facto de estes muitas vezes terem mais força na produção de mudanças comportamentais do que a simples comunicação de informação. Schultz e os seus colaboradores demonstraram isto mesmo num estudo realizado em 2016, no qual compararam os efeitos de comunicar diretamente às pessoas dicas sobre poupança de água com os efeitos de comparações sociais. Os resultados foram claros: enquanto dar meramente informação aos residentes não produziu qualquer redução do seu consumo de água (os resultados nesta condição não foram estatisticamente diferentes da condição controlo, na qual nada foi comunicado aos participantes), juntar a estas dicas uma comparação desse consumo com a média no seu bairro de residência produziu uma redução de 26% no mesmo.


Uma Abordagem Comportamental


As alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global fazem prever que o problema da seca tenha tendência a agravar-se cada vez mais. Assim, além de outras medidas, torna-se essencial que as pessoas alterem os seus comportamentos diários no sentido de um consumo de água mais responsável. Para isso, é importante compreender porque é que os comportamentos de gasto excessivo de água ocorrem, para que possamos alterar o contexto de forma a eliminar alguns dos obstáculos e a tornar mais intuitivos os comportamentos mais benéficos para os indivíduos e para a sociedade. Por essa razão, é crucial atentar aos processos psicológicos envolvidos na tomada de decisão e comportamento de consumo e gasto de água, de modo a compreender onde atuar, de forma cirúrgica, e assim obter melhores resultados. Intervenções comportamentais podem ser uma ferramenta fundamental na promoção de comportamentos mais adequados e ambientalmente sustentáveis ao nível do consumo e gasto de água.

Criado por

Diogo Santos, MSc, CLOO Professional Internship

Referências

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